Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
Saúde

Síndrome de Munchausen por procuração: quando a mãe simula doenças no filho.

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A síndrome de Munchausen por procuração é caracterizada pela simulação, exacerbação, indução ou falsificação de sinais e sintomas em crianças, feita por um dos pais, normalmente a mãe (por isso o nome ‘’por procuração’’, porque o indivíduo simula quadros em outra pessoa, não nela mesma), com a intenção de chamar atenção para si. Já a síndrome de Munchausen é a simulação de sinais e sintomas em si mesmo.

É uma variante dos distúrbios factícios e a taxa de mortalidade é alta, cerca de 9%. É uma síndrome pouco conhecida pelos profissionais da saúde, o que torna a sua subnotificação uma realidade. Nesse sentido, a literatura carece de estudos consistentes acerca da epidemiologia, manejo e prognóstico. Além disso, normalmente quando a mãe é confrontada sobre a veracidade dos sintomas e diagnósticos do seu filho, nega estar mentindo e troca de médico, o que dificulta a realização do diagnóstico de síndrome de Munchausen por procuração.

Nessa síndrome, a vítima é exposta a repetidas consultas, internações, exames laboratoriais e radiológicos e tratamentos desnecessários, o que gera sequelas físicas e psicológicas e um gasto para o sistema de saúde que poderia ser evitado. Um estudo feito por Rosenberg juntou 117 casos em que foi possível traçar os perfis do perpetrador e da vítima:

1) a maioria dos casos são provocados pela mãe;

2) a mãe é afetuosa, cuidadosa e permanece quase todo tempo com a criança hospitalizada;

3) a mãe nega simular os sintomas nos filhos, mesmo quando confrontada;

4) a mãe apresenta tratamento psicoterápico prévio;

5) a aparente devoção da mãe sensibiliza e engana a equipe de saúde;

6) a mãe aprecia e estimula procedimentos médicos sofisticados, ainda que potencialmente perigosos;

7) a preocupação do perpetrador não parece proporcional à aparente gravidade da doença;

8) várias visitas ao médico, estudos e internações hospitalares;

9) doença da vítima é incomum e de difícil diagnóstico;

10) várias recaídas da vítima e má resposta ao tratamento;

11) elaboração de várias hipóteses diagnósticas inconsistentes;

12) exames complementares não concordam com estado físico da criança;

13) 44% dos sintomas encontrados nesta síndrome são de sangramentos e 42% são depressão do sistema nervoso central.

SINTOMAS
A mãe relata que o seu filho apresenta inúmeros sintomas, como os citados abaixo, com os respectivos mecanismos de indução mais frequentes:

  • Apnéia (sufocação);
  • Vômitos intratáveis (intoxicação ou falso relato;
  • Sangramentos (intoxicação ou adição de substâncias: tinta, corantes, cacau;
  • Exantemas (intoxicação, arranhões, aplicação de cáusticos, pintura da pele;
  • Crises convulsivas (intoxicações, falso relato, sufocação;
  • Diarréia (intoxicações por laxativos;
  • Febre (falsificação da temperatura ou da curva térmica).

DIAGNÓSTICO
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), na quinta edição, traz a definição de distúrbio factício: aquele imposto a si próprio e ao outro. Abaixo vemos os critérios para distúrbios factícios impostos ao outro.

TRATAMENTO
Até o momento a literatura não demonstrou tratamentos efetivos por meio de estudos bem delineados. Normalmente são usadas algumas estratégias como psicoterapia, tratamento medicamentoso, terapia comportamental e técnicas multidisciplinares.

CASO REAL QUE GANHOU DESTAQUE NA MÍDIA
Nos Estados Unidos, Dee Dee Blanchard morava com a sua filha Gypsy Rose, uma adolescente com diversos problemas de saúde, segundo a mãe: distrofia muscular, asma, epilepsia, apneia do sono, problemas de visão, etc. A garota usava cadeira de rodas e tinha o cabelo raspado. Ambas frequentaram diversos médicos e Gypsy fez inúmeros exames, procedimentos e tratamentos. Dee Dee era uma mãe superprotetora e Gypsy não podia fazer nada sozinha. Em 2015, Dee Dee foi encontrada morta e após investigação, descobriu-se que o autor do assassinato era Nicholas Godejohn, namorado de Gypsy, que cometeu o crime a seu pedido. Atualmente, ambos estão presos e se chegou à conclusão de que a mãe, Dee Dee, sofria da síndrome de Munchausen por procuração. Ela simulava e induzia sintomas em sua filha e, quando algum médico desconfiava, trocava de profissional. Por fim, foi visto que na verdade Gypsy era totalmente saudável, capaz de andar sem cadeira de rodas e seu cabelo crescia normalmente.

REFERÊNCIAS

1. FERRÃO, Ana Carolina Fernandes; NEVES, Maria Da Graça Camargo. Síndrome de Munchausen por Procuração: quando a mãe adoece o filho. Comunicação em Ciências da Saúde, p. 179-186, 2013. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/ccs/sindrome_munchausen_procuracao.pdf>. Acesso em: 27 jul. 2020.

2. GOMES, Fernando. A trágica história real da garota refém de doenças criadas pela própria mãe. MdeMulher. Disponível em: <https://mdemulher.abril.com.br/famosos-e-tv/a-tragica-historia-da-garota-refem-de-doencas-criadas-pela-propria-mae/>. Acesso em: 27 jul. 2020.

3. PIRES, Joelza M. A.; MOLLE, Lucas Dalle. SÌndrome de Munchausen por procuração – relato de dois casos. Jornal de Pediatria, v. 75, n. 4, p. 281-286, 1999. Disponível em: <http://www.jped.com.br/conteudo/99-75-04-281/port.pdf>. Acesso em: 27 jul. 2020.

4. SOUSA FILHO, Daniel de et al . Síndrome de Munchausen e síndrome de Munchausen por procuração: uma revisão narrativa. Einstein (São Paulo), São Paulo , v. 15, n. 4, p. 516-521, Dez. 2017 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-45082017000400516&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 27 jul. 2020. https://doi.org/10.1590/s1679-45082017md3746.

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