Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
Historia

O Estado dos Rundos (Lundu)

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No início do Séc. XVI já este Estado era totalmente independente dos seus congéneres de origem marave (Caronga, Undi, Capuíte, etc.).
Mas o título monárquico de Rundo só ulteriormente veio a ser divulgado pelos Portugueses. A região da margem esquerda do Zambeze oposta a Tete foi, de início, designada por Moziba e visitada em 1512 por António Fernandes, que esclareceu: «Nesta terra não há senão panos de algodão, feitos nela e que são levados a vender ao Monomotapa». W. A. Godlonton defende que a ilha situada a sete dias de Moziba, no «reino de Quitengue» — ilha cuja posição estratégica o explorador tanto enalteceu — seria o triângulo de Inhangoma, em pleno território dos actuais maraves-manganjas, limitado pelos rios Zambeze, Chire e Ziuziu. A. Lobato lembra que esta activa indústria de tecelagem, só extinta no presente século, é indício irrefutável da antiguidade da presença asiática no vale do Zambeze e, por conseguinte, de intercâmbio comercial com o ultramar. Esses tecidos artesanais de algodão seriam trocados por ouro, no Estado dos Mutapas. O precioso metal seria vendido aos islamizados a troco de missangas e outros produtos.

M. Schoffeleers, após o estudo sistemático das tradições orais, respeitantes às iniciais relações litigiosas entre a aristocracia conquistadora dos piri e os arcaicos cultos territoriais de Chissumpi e M’bona, aventa que a decisão pela primeira tomada de estabelecer centros religiosos alternativos nas terras baixas de Msinja e Culubvi, a curta distância das montanhas de Capirintíua (Kaphirintiwa) e Cope (Khope), onde os mesmos se situavam, possa ter sido ditada pela necessidade de afirmar a sua supremacia política sem, no entanto, cortar completamente as ligações com o passado e com as populações submetidas. Simultaneamente, a maior facilidade de acesso e a organização mais complexa e dependente do seu funcionamento parecem reflectir o estreitamento dos laços entre os novos santuários e as novas autoridades políticas, e, daí a crescente projecção dos primeiros como centros de expansão do poder estadual.

Todavia, as persistentes tradições que mencionam o martírio do sumo-sacerdote de M’bona têm bastantes probabilidades históricas de veracidade. Sabe-se que a fundação do reino foi marcada por uma série de acontecimentos violentos: revolta do Rundo I contra a soberania de Capuíte; usurpação do título monárquico por um membro júnior da matrilinhagem, o qual assassinou o legítimo herdeiro; mudança da capital para um local estratégico que permitia controlar o tráfego pelas rotas do Chire e do Zambeze.

Seja como for, após o monarca ter garantido o seu domínio sobre o santuário principal, a influência do culto expandiu-se, simultaneamente, com as conquistas territoriais. A maioria dos chefes tributários dispunha de um santuário subalterno da M’bona. A autor supracitado aponta os seguintes, nas terras que os Manganjas habitavam antes das devastações dos Senhores de Prazos, dos Cololos e dos Angunes e das imigrações macua-lomuès: Serra Tumbine (Milange); Serra Chiperone (Monguè); Camanga, Nhaluca e Morrumbala (margem esquerda do Chire); Dobvu (Charre).

Parece terem sido de natureza económica as causas que, na segunda metade do Séc. XVI, levaram o Rundo e os seus «zimbas» a atacarem os estabelecimentos portugueses e a expandirem-se em direcção aos portos marítimos. Esse povo industrioso que João dos Santos acusa, com fundamento, de práticas inveteradas de antropofagia e que em lugar de Deus «venera(va) e honra(va) o seu Rei, o qual tem por causa divina e dizem que é o maior e o melhor do mundo», esse povo, repetimos, não se dedicava apenas ao cultivo e à tecelagem intensiva de algodão. Produzia, também, excedentes agrícolas e sal para exportação. Primava, igualmente, nas artes metalúrgicas, artes de que parece derivar o etnónimo Manganja (54). A simples menção dos ganchas de ferro que os zimbas sitiados lançavam aos sitiadores das suas estacadas (55) é suficiente para demonstrar a sua superioridade metalúrgica. Na região também abundavam elefantes, capturados em armadilhas e cavais. Era o povo com maior auto-suficiência em toda a África Leste-Central.

Ora a presença dos comerciantes aportuguesadas veio abalar profundamente a base económica do poderio dos dirigentes do Estado, situação agravada pela indiferença que esses comerciantes manifestavam peto marfim e, ainda, pela introdução maciça de tecidos importados. Daí o seu objectivo em assegurarem o controlo das rotas comerciais com os portas oceânicos e de regressarem ao antigo e proveitoso intercâmbio. A. Alpers trata longamente desta matéria, parecendo-nos as suas ilações bastante acertadas.
Nesta fase de expansão para Oriente surge um novo etnónimo que, a acrescentar aos de Zimbas e Manganjas, veio agravar a confusão: o de Lolo, que os Portugueses transformaram em Bororó. Ora, esses Lolos eram nada mais nada menos do que a população de origem macualómuè que se dispersava pelo Baixo Zambeze, desde Quelimane até ao Chire. Os Zimbas, comandados pelos Rundos, devem ter assimilado nas suas hostes grande número de guerreiros daquela origem, processo comum nas grandes invasões africanas e sistematicamente repetido pelos Angunes durante o Séc. XIX.

A assimilação não foi apenas militar, mas igualmente religiosa. Os Lolos criaram santuários subalternos de M’bona, embora continuassem a reconhecer a supremacia do culto sediado em Culubvi. Contudo, não eram autorizados a participar nos rituais em regime de igualdade com os conquistadores, o que reforçava a superioridade política dos Manganjas.

Está fora do escopo desta obra indagar se, efectivamente, os Zimbas-Lolos-Manganjas prosseguiram ao longo do litoral até atingirem Quílua (cuja população teriam devorado) e, mais ao Norte, Mombaça e Melinde, onde teriam sido desbaratados e quase aniquilados pelos Senguejos, como narra João dos Santos
No Norte de Moçambique esta invasão e posterior ocupação deixou bastantes vestígios e influências. Eduardo Lupi afirma que em Angoche, no início deste século, os mais importantes chefes tribais e clânicos se consideravam descendentes dos invasores «marundo». Também em Moebaze sobrevive a tradição de uma invasão chefiada por Rundo.

Serpa Pimentel chega ao ponto de afirmar que a terrível ferocidade dos Macuas do litoral se devia às perniciosas inclinações deixadas pelos canibais zimbas:
«Não é, porém, assim (i.e. nem todos os Macuas descendem dos cruéis zimbos). Outros Macuas, de costumes menos selvagens e dotados de melhor índole, ocupam o distrito, e mormente a sua região montanhosa e o interior até ao Lago Niassa. São, quero crer, descendentes dos antigos povos agrícolas e pastoris, entre os quais não deixou vestígios a invasão dos Simbos»… «essas tribos isoladas próximas do litoral procedentes dos antigos Zimbos, e que têm sido a principal dificuldade ao exercício da nossa soberania no distrito.»

Mas, como veremos, a mais profunda influência foi exercida na actual Manganja da Costa, topónimo que, por si só, sugere uma ocupação do litoral pelos «Manganjas» do interior, mais precisamente do Baixo Chire. Thomas Price, ainda em 1960, ali encontrou a recordação de peregrinos irem propositadamente realizar preces pela chuva no santuário de M’bona e de, pelos antigos, ser falada a língua dessa região interior. Margot Dias refere-se a danças de máscaras semelhantes às popularizadas pela irmandade do nhau, instituição característica dos Maraves.

Outro importante efeito das invasões foi a fundação de uma unidade política de tipo estadual: o reino de Maurussa, fronteiro à Ilha de Moçambique, que, como veremos, conseguiu manter-se independente durante três séculos.

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