Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
Historia

O Estado Dos Mutapas (Mwenemutapas)

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O povo cujos dirigentes viviam no Grande Zimbábuè veio a expandir-se em várias direcções, organizado em linhagens dinásticas, preferindo, como é óbvio, as regiões com melhores potencialidades naturais, sobretudo em águas e pastos para as suas manadas. Outro critério que orientava a sua escolha relacionava-se com a existência de jazigos auríferos.
Os primeiros portugueses ainda presenciaram este processo de expansão, descrevendo a construção de zimbábuès amuralhados a norte e a leste do planalto. Também acentuaram a dimensão dos centros populacionais, a que chamavam «cidades», formados por concentrações de vulgares palhotas ao redor das mais vastas e sólidas residências dos dirigentes, erigidas no interior desse muros de pedra solta.
Tais relatos foram confirmados pelas modernas investigações arqueológicas. Todavia, estas atestam que, paulatinamente, as moradias «reais» passaram a ser idênticas às do vulgo, isto é, pallhotas cónicas de pau-a-pique rebocado com argila. O cercado, quando existia, era confeccionado com grossos troncos. No exterior da paliçada espalhava-se a plebe em concentrações que variavam entre os dois e os três milhares.

Entre as regiões de elevadas potencialidades colonizadas pelos migrantes provenientes do Grande Zimbábuè contava-se a que é limitada a norte e oeste respectivamente, pelas cordilheiras de Mavuradonha e de Umvucuè (Umvukwe). É de clima temperado, situa-se a mais de 900 m. de altitude, goza de precipitação anual superior a 800 mm e possui solos férteis, boas pastagens e bastantes jazigos auríferos. Era designada por Mucaranga.
Aí fundaram um estado cuja duração temporal se prolongou por quatro séculos e que teve importância capital na história chona-caranga não pelas relações de aliança ou hostilidade que manteve com os Portugueses mas porque conseguiu dominar pelo menos vinte e cinco linhagens dinásticas de secundária projecção.
O rigor histórico exige que se reduza à sua verdadeira dimensão o poder dos Mutapas, tão sobrevalorizado pelos iniciais relatos portugueses. Acreditava-se que o seu «império» se estendia do Zambeze até à foz do Limpopo, abrangendo os reinos do Báruè, Manica, Teve, Danda, Butua-Tórua, etc. A sobrevivência deste mito é explicada por David Beach pela evidente conjugação de interesses entre os Mutapas e os súbditos portugueses. Por um lado, os primeiros tentaram convencer os segundos de serem os únicos interlocutores válidos porquanto dominavam política e economicamente todo o vasto interior, incluindo os centros auríferos e as rotas comerciais. Por seu lado os Portugueses também propendiam a alimentar esta ficção para justificarem, pelos tratados assinados com os Mutapas, os direitos que se arrogavam possuir sobre minas, terras e comércio, e, bem assim, os ataques que desferiram contra os chefes que ousavam rebelar-se contra o seu «legítimo» soberano. Em boa verdade a autoridade dos Mutapas era contestada não apenas no planalto mas até mesmo no longo e vital corredor que seguia a margem do Zambeze até próximo da foz.

Entre outros os testemunhos de António Fernandes e João dos Santos são eloquentes a esse respeito.
A realidade é que a influência directa dos Mutapas se circunscrevia a uma área com os seguintes limites aproximados: a norte e leste o rio Zambeze; a sul os rios Luenha e Mazoe; a oeste os rios Huambe e Dande e a cordilheira de Umvucué. Fora destes limites, os territórios avassalados e tributários flutuavam de harmonia com a decisão, o prestígio e os recursos dos sucessivos Mutapas. Se algumas terras, como as de Chidima, no vale do Zambeze, estiveram sob o controlo directo dos monarcas, outras havia em que as ligações se reduziam a antigos mitos de origem.
A arqueologia, as tradições orais e a documentação portuguesa atestam que o Estado dos Mutapas possuíu diversas capitais numa zona planáltica que compreendia o Monte Fura, a antiga feira de Massapa e as ruínas de Zuongombe. Daí os Mutapas foram expulsos para as terras baixas apenas em 1663.
Graças à documentação portuguesa podem reconstituir-se as principais estruturas políticas, militares, religiosas, sociais e militares de alguns estados de origem chona-caranga e, em especial, do Estado dos Mutapas. É possível que algumas dessas estruturas também se encontrassem nos Estados do Grande Zimbábuè, Butua-Tórua e Changamire, acerca dos quais pouco ou nada se sabe.
Uma das principais causas e consequências do poder dos chefes residia no grande número de esposas, sempre reforçado pela vasta parentela de afins e consanguíneos, por ascendentes, colaterais e descendentes. Essas esposas não eram simples meios de reprodução mas poderosas personalidades por direito próprio, possivelmente filhas dos chefes avassalados. Dispunham de terras, povoações e forças armadas. O título de «esposa» constituía eminente cumprimento. A própria designação dinástica de «Caranga» significava «esposa». O poder e o prestígio de que gozavam pendiam as mais ambiciosas a interferir na vida política. Entre as rainhas, a principal deveria ser irmã do monarca para demonstrar que este possuía um «status» de tal maneira elevado que lhe era permitido violar o rigoroso tabu do incesto observado pelos plebeus. Todavia, duvida-se que tivesse filhos dessa irmã, o que a colocava numa posição de maior imparcialidade nas disputas de sucessão.

Os monarcas deviam gozar suficiente saúde e apresentar perfeita forma física. Mandariam os costumes que se suicidassem caso sofressem de doença, deformidade ou impotência. João dos Santas conta, por exemplo, o caso do rei de Danda que se suicidou quando contraiu lepra. Mas aquela norma era mais desobedecida do que respeitada, embora ficasse prejudicado o prestígio do real contraventor.
Também o suicídio colectivo das rainhas podia ou não ser observado. Francisco de Monelaro e João dos Santos narram dois casos afirmativos ocorridos em Manica e Teve. Porém, outros se conhecem em que as viúvas reais não só sobreviveram como também desempenharam papel activo na escolha do sucessor que as iria receber em herança.

O vestuário era um dos principais símbolos do superior «status» dos dirigentes. Devido ao imenso trabalho exigido pelo seu fabrico, os tecidos de produção local podiam ser tão prestigiados como os de proveniência ultramarina.
Os aglomerados «urbanos» obrigavam a adoptar medidas que alcançassem a maximização relativa da produção alimentar. Daí a necessidade dos homens participarem activamente nas tarefas agrárias. Além disso, cumpria-lhes fornecer, nos campos da casa real, prestações de trabalho relativamente pesadas.
Os monarcas também tributavam a produção aurífera obtida, como tudo indica, em explorações de tipo familiar. De harmonia com o que consideravam «razões de Estado» podiam, eventualmente, ordenar o encerramento de parte das minas.
Quanto à corte, os relatos portugueses permitem afirmar que as personagens reais envergavam armas e insígnias distintas, pelo menos nas cerimónias e ocasiões formais. Além disso eram cercadas por apuradas normas de etiqueta.
Acerca do carácter «divino» dos monarcas teceram-se fantasiosas especulações. Da documentação da época, das tradições orais e da antropologia religiosa apenas se infere que dirigiam preces aos seus antepassados rogando por todo o país ou consultavam os médiuns que encarnavam os espíritos dos reais defuntos. Não há qualquer sugestão de que eles próprios fossem divinisados ou mesmo possuídos por espíritos que lhes concedessem poderes sobrenaturais. O respeito que lhes era demonstrado baseava-se nas suas funções políticas e não nos seus atributos religiosos. Os registos portugueses não aludem a qualquer Ser Supremo como poderes semelhantes aos de Muari, Chamimica e Nehanda que têm sido sobrevalorizados em recentes especulações.
Já a autoridade militar dos monarcas era considerável. Além de um corpo de guarda, mais ou menos permanente, possivelmente integrando parentes por sangue ou aliança, podiam mobilizar os homens válidos não ocupados em actividades essenciais. Grupos maiores ou menores de guerreiros, comandados por chefes que dispunham de distintivos, tambores e outros meios de transmissão de ordens, podiam ser mandados executar operações a distâncias consideráveis. Além de várias armas de esgrima e arremeço, usavam grandes escudos de madeira. As armas de fogo só após 1700 passaram a ter alguma relevância.

Precária era a estabilidade política do Estado dos Mutapas, mesmo antes dos Senhores dos Prazos terem feito sentir a sua influência devastadora. A mais antiga revolta de que se tem notícia consta da célebre carta de Diogo de Alcáçova. Cerca de 1490 um dignatário conhecido por Changamire, possivelmente do totem moio, chacinou o Mutapa reinante e vinte e dois dos seus filhos. Só quatro anos depois, um dos raros sobreviventes, Cacuio Comunhaca, conseguiu controlar de novo a província, depois de executar o revoltoso. Mas um dos sucessores do Changamire resistiu ao poder central pelo menos até 1512, valendo-se do auxílio prestado pelo Estado de Butua-Tórua, no sudoeste do planalto. Pouco depois, as vias de comunicação com Sofala foram afectadas pela revolta de Inhamunda, poderoso chefe vivendo inicialmente entre o Buzi e o Save que pelo menos até 1530 dominou as terras baixas até ao Punguè. Em 1516 há notícia da revolta do próprio Sono, título do comandante-em-chefe do Mutapa.
As grandes conquistas de um tal Mutapa Munembire que, na hipótese de D. P. Abraham, teriam ocorrido nas décadas de 1530 e 1540, não são confirmadas pelas tradições orais nem pelos documentos portugueses. Pode-se, quando muito, detectar um movimento dos Mutapas em direcção a Tete na década de 1530 e uma guerra contra os Tongas do Baixo Zambeze (cujo chefe se intitulava Samungazi) cerca de 1550.
Sendo o rio Zambeze e o porto de Quelimane (alcançado pelo navegável Cuácua) a via natural entre os Mutapas e o oceano, há que buscar explicação para os extraordinários esforços que desenvolveram para comerciar com a feitoria portuguesa de Sofala. E essa explicação reside, possivelmente, no frequente bloqueamento de tal via pelos dirigentes de uma unidade política rival, poderosa e imbatível que, instalada na margem esquerda, conseguia controlar o tráfego no Baixo Zambeze. Essa unidade, a que faremos oportuna referência, chamava-se Roro ou Lolo.

Muito embora o interior haja sido percorrido por António Fernandes e se saiba que, durante os primeiros quarenta anos da presença portuguesa no litoral, por ali se foram espalhando foragidos e traficantes, apenas em 1541 surge notícia de uma comunidade permanente. Nesse ano o Mutapa investiu o primeiro «Capitão das Portas», sediado na feira de Massapa, que iria ter autoridade sobre os moradores de nacionalidade portuguesa. Concedeu-lhe o título honorífico e vitalício de sua «mulher principal».
Como se sabe, na sequência da execução do missionário Gonçalo da Silveira, em 1561, decidiu a Coroa Portuguesa organizar uma expedição cujos objectivos visavam a punição dos culpados e a ocupação das minas de ouro. Ao tentar atingir o interior pelo vale do Zambeze teve, em 1572, que bater em retirada, vencida mais pelas doenças do que pela resistência organizada dos Tongas, lutando por se manterem independentes tanto dos Mutapas como dos Portugueses. A via alternativa de Sofala- -Teve-Manica foi tentada, dois anos depois, pelo melhor avisado Vasco Fernandes Homem. Limitou-se a reconhecer que os pequenos e dispersos jazigos apenas tinham valor económico complementar para os cultivadores que, com esforços ingentes, os exploravam durante a estação seca e morta, mobilizando o trabalho familiar. O maior beneficiário destas frustradas expedições foi o próprio Mutapa que viu castigadas as veleidades de autonomia dos seus rivais Samungazi e Chicanga.
É sabido que os Portugueses designavam por «mouros» os mussulmanos, de qualquer raça ou língua, que se distinguissem pelo vestuário, pelo nome islâmico e, naturalmente, por algumas práticas corânicas. Parece possível que os «mouros» que comerciavam no litoral e no interior fossem apenas africanos convertidos ao maometanismo. Não há provas de que o planalto fosse visitado por Árabes ou mesmo pelos «Xirazis» de Quílua e outros portos.
Ora, tanto a precedente população de «mouros» como a dos seus próprios cidadãos foi grosseiramente exagerada pelos relatos portugueses. O número de 10 000 estimado para os primeiros por Duarte Barbosa pode, sem receio, reduzir-se para 1500-2000. Quanto aos segundos, na maioria goeses e mestiços, não deviam ultrapassar os 500 entre o Zambeze e o paralelo Save-Alto Limpopo. Mas a influência económica de uns e outros ultrapassava enormemente a reduzida expressão demográfica desses efectivos.

O objectivo de tais comunidades estrangeiras, institucionalizadas sob a designação de «tórua», era, evidentemente, enriquecer a curto prazo. Cedo compreendendo como era ruinosa a exploração directa dos jazigos, deixaram a penosa tarefa aos plebeus africanos e passaram a concentrar a sua atenção no comércio de troca, em feiras e bazares. «Ele (Mutapa) deu já a alguns portugueses algumas (minas) dos que lá andavam, mas por ser maior o gasto que se faz em o tirar do ouro, e tirar-se-ão tão pouco cada dia as não quiseram» (8). Com o seu crescente domínio sobre os partos e o tráfego marítimo e com a dispersão de feiras pelo interior, os nacionais portugueses passaram a dominar completamente a actividade comercial, empregando os afro-islamizados como seus agentes ambulantes. Os lucros eram enormes. «E desta maneira de cem cruzados se fazem bem feitos três mil cruzados havendo boa ordem nisso, e não havendo portugueses que andem lá danando o trato…».

Sobre essa actividade impunham os dirigentes chonas-carangas pesadas taxas. Logo após a sua chegada deviam os mercadores visitá-los com presentes. Oportunamente eram-lhes cobrados direitos de trânsito e de importação. Em troca da autorização concedida aos súbditos portugueses, cada novo Capitão de Moçambique ficava obrigado a entregar ao Mutapa um tributo, a célebre curva, no valor de 3000 cruzados, sob a forma de tecidos e missangas.
Na impossibilidade de encontrarem alternativas comerciais diversas das oferecidas pelos mercadores de nacionalidade portuguesa ou de estes se interessarem pela exploração mais mecanizada e racionalizada dos jazigos mineiros, os dirigentes chonas-carangas não tinham saída para o impasse. A plebe rural acabava por ser a principal vítima, enredada entre as crónicas carências de alimentos, as exigências em serviço braçal e militar para a classe dominante e, enfim, as desenfreadas cobiças dos comerciantes estrangeiros.
As tradições das casas reinantes dos chonas-charangas orientais revelam notável concordância num ponto: uma origem sita algures no noroeste, isto é, no Estado de Mutapa e nas terras circunvizinhas.
Divergindo essas tradições quanto às circunstâncias em que ocorreu a fundação dos mais conhecidos reinos orientais (Báruè, Manica, Teve, Danda e Sanga) convirá que este processo seja visto sob a perspectiva de um movimento gradual que se prolongou por dois ou mais séculos, com início, o mais tardar, nos primórdios do Sec. XVI.

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