Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
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Literatura Angolana Hoje

Literatura Angolana Hoje
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*Germano Machado

Falar sobre a literatura angolana é uma convocação ao estabelecimento de várias pontes. Resgate duplamente necessário, no que tange ao pensamento brasileiro. Por dois aspectos essenciais, que dizem respeito ainda mais à literatura baiana, se assim posso denominá-la. Por um lado, uma africanidade, presente em nosso povo, em nossa fala, em nosso corpo. Em nossas cores, em nossos cantos, em nossas crenças. Por outro lado, a língua portuguesa oficial, que nos integra a uma comunidade lusófona maior. Cada um desses aspectos envolve um universo de possibilidades de análise, reflexão e pensamento. Ambos se conjugam e se configuram de forma diferente e multifacetada, tanto na Bahia/Brasil como em Angola.

Este paralelo foi realizado com a crença de que os elementos comuns das duas culturas possibilitam chaves de análise oportunas para a percepção das diferenças, tanto no mais distante, quanto no mais sutil, na filigrana do escrever. Através da constatação destas aproximações e distanciamentos, novos discursos podem ser concretizados. Olhar para a literatura de Angola é olhar o próximo e o distante, identidade e alteridade. Apesar de tantos pontos em comum, de formas diferentes, salienta-se o fato da pouca visibilidade da literatura angolana em terras brasileiras, fenômeno certamente influenciado por barreiras etnocêntricas que privilegiam o legado de uma matriz, a saber, a europeia. Dado este contexto, qualquer esforço de descortinamento desta literatura tão rica deve ser digno de nota, de menção, de louvor. Pela coragem de olhar além do que o cânone impõe. Pela consciência de buscar outros falares, que expressam diversidade pensamental.
A Professora Carmen Lúcia Tindó Secco, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008), publicou importante trabalho sobre a literatura lusófona em África, no qual discorre sobre importantes nomes da escrita angolana. A autora apresenta ao leitor antídotos para pré-conceitos vigentes sobre o tema, propiciando um contato mais próximo com a literatura em questão, tanto no verso, quanto na prosa. Explicando o nome de sua obra, “A magia das letras africanas”, ela desdobra as diferentes acepções da palavra “magia”, para além do que tradicionalmente se conhece. Transcende este olhar limitante, que restringe o termo a “bruxaria”, “feitiçaria”, impregnado pelo preconceito nefasto contra as crenças africanas. Em ampliação, ela traz o sentido de encantamento, da leitura que prende a atenção, através de uma história bem contada, com base na oralidade dos mitos, dos contos, dos ditos populares, plenos de uma sabedoria condensada e sobreposta através dos séculos, por várias pessoas. Um saber coletivo que se torna base para uma produção poética e subjetiva na atualidade, a partir do momento em que oferece chaves de interpretação da conjuntura histórica.
A escrita angolana possui a magia da palavra que nomeia e, por isso mesmo, permite agir sobre o mundo das coisas. A autora ainda fala que essa magia é passada da oralidade para a escrita, conservando sua espontaneidade e plasticidade semântica, na reconstrução de possibilidades de uso. Antigo saber que se reinventa através da flexibilidade mesma que a oralidade possui. A consciência dos seus autores traz importantes elementos para análise deste processo, faz-se mister citar importantes autores angolanos, e algumas de suas obras, mencionados por Secco (2008) em seus ensaios:
 – Manuel Rui (1941-): importante autor de verso e prosa, seu trabalho tem grande presença de temas sociais, mas sem perder de vista a poética e a influência das narrativas ancestrais. Relação criativa com a política, ao passo que sua escrita também tem poder político ao exprimir anseios de ordem social.
– Agostinho Neto (1922-1979): através do seu texto “Náusea”, relaciona a água à origem mítica africana e a história de Angola. O personagem central, o velho João, é mostrado em seu nível existencial e social. Outra relação existente é o mito e a história. O mito de uma divindade local (atemporal) torna-se fio condutor da vida do personagem (temporal).
– Pepetela (1981-): em seu livro Mayombe, une mitologia africana e ideais revolucionários. Unindo elementos das mitologias grega e africana, cria uma alegoria aos guerrilheiros angolanos;
– Luandino Vieira (1935-): mostra a importância e a sabedoria de grupos marginalizados, como idosos, crianças e pessoas com necessidades especiais. Questiona a sociedade, através da ruptura com a norma linguística, ultrapassando o regional ao abordar o universal.
– Boaventura Cardoso (1944-): que retrata os múltiplos discursos sociais da Angola pós-independência, criando um panorama desta época, através de sua obra Maio, mês de Maria.
– Arlindo Barbeitos (1940-): que mostra as dificuldades e o ambiente árduo, marcado pelos conflitos armados em Angola. Além de beber da tradição do seu país, renovou a poética e também realizou crítica social.
– Paula Tavares (1952-): sua poesia tem como referência a cultura do sul de Angola, com grande influência da tradição oral, como os provérbios, um saber popular, transmitido de forma oral. Outros autores demonstraram a importância social da poesia, revelando uma produção que dialoga com sua realidade política, recorrendo ao passado mítico como base. Esta renovação, ocorrida principalmente nos anos 80 e 90 do Século XX, traz a poesia como resistência. Nomes significativos desta vertente são: José Luís Mendonça, João Maimona, Paula Tavares, João Melo, Lopito Feijóo, Frederico Ningi, Fernando Kafukeno e outros do mesmo alto valor. Como cronistas da história de seu país, ainda assim retratam seu tempo com a singularidade de cada olhar. Os poetas pertencem ao mesmo contexto, mas os poemas carregam os matizes da percepção de cada um. Nesta mesma paleta de cores diversas, encontram-se desde Carla Queiroz (Secco, 2008), e a descrença na conjuntura social do seu país, a Agostinho Neto, que lutou pela libertação de Angola e pela criação de uma poesia nacional, o que mostra e demonstra a criatividade desses autores.
A produção poética angolana contemporânea é marcada por heterogeneidade, da tradição de oralidade à sua ruptura. Apesar do desencanto, provocado pelas contradições sociais, os poetas continuam com um versejar crítico, estimulando o povo angolano a refletir sobre os próprios sofrimentos e sua superação. Em todos os matizes que se apresenta, a poesia angolana é marcada pela resistência. O esforço poético que se caracteriza por vislumbrar além, como salienta a autora, “(…) a poesia se oferece ainda como força geradora de utopia, pois os poetas continuam a crer no poder da linguagem poética (…)” (SECCO, 2008, p. 308). A literatura angolana, com a influência da oralidade, resgata elementos do passado, mas está com os dois pés no século XXI. Elementos de sua tradição em narrativas são reconfigurados por autores contemporâneos, num processo de verdadeira síntese estilística, na qual passado e futuro não necessariamente entram em conflito, mas se encontram e tudo superam em ordenamento de continuidade progressista.

Referência do Autor:

*Germano Machado -Professor, jornalista, escritor e filosofo. Fundador do CEPA – Círculo de Estudo Pensamento e Ação, movimento educativo-cultural com 63 anos de existência, membro das Academias Baiana de Educação, Letras e Artes do Salvador e Mater Salvatoris. Autor de 17 livros dentre ele “Os Dois Brasis” Ed. CEPA/BA-Brasil 2014. Esse texto é parte integrante da apresentação da Coletânea Poética KIXIMANU com escritores brasileiros e angolanos.

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