Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
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Falar Em Público

Falar em Público
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Seduzir uma plateia, prender a atenção dos ouvintes, fazer um discurso assertivo, encontrar as palavras certas, ter a noção do tempo e atender à qualidade  dos interlocutores, para não falar nem acima nem abaixo das suas expectativas, é uma arte.

Num país tomado pela mania das conferências, debates, encontros, seminários e colóquios mais ou menos substantivos, é arrepiante assistir a certas preleções de certos oradores. Alongam-se sempre mais do que devem, perdem-se no raciocínio, usam palavras caras, abusam de uma suposta erudição própria, intelectualizam o discurso e conseguem enfadar todos os presentes. Pior do que o bocejo que provocam é a nulidade da sua presença, tantas vezes preparada ao detalhe.

Muitas vezes o investimento que este tipo de oradores faz na preparação da sua intervenção revela-se completamente desproporcionado e desajustado. Escrupulosos, dão-se ao trabalho de organizar o discurso, de o escrever, de juntar acetatos, vídeos e outro material de apoio, numa tentativa genuína de fazer passar a mensagem e serem mais eficazes. Na teoria está tudo certo mas a prática nem sempre confere com aquilo que pretendem.

Um discurso lido perante uma plateia torna-se facilmente maçador intervenção feita com base em acetatos onde está escrito exatamente aquilo  que o orador vai dizendo é impossível de acompanhar, pois a atenção divide-se entre o que é dito e aquilo que é mostrado; uma elaboração demasiado conceptualizada e centrada na ciência do próprio orador pode revelar-se perversa, na medida em que soa a presunção de superioridade, e uma teoria apresentada com excessivo pormenor é ineficaz porque os ouvintes não têm capacidade  para reter tanta informação.

Assim sendo, por mais eloquente que seja o conteúdo ou a forma das intervenções públicas, elas só serão efectivas se forem “traduzidas” e simplifica- das em função das características da plateia. Com simplificação não quero dizer banalização ou superficialidade, muito pelo contrário, trata-se de ser incisivo e de tentar centrar o discurso no essencial, poupar os ouvintes a longos e fastidiosos monólogos e perceber que tudo se perde quando o orador passa a ser ouvinte de si próprio e se deixa encantar com aquilo que vai dizendo.

Tenho participado e assistido a muitas palestras e conferências nos últimos dez anos verifico que os verdadeiros conferencistas são aqueles que conseguem ser simples e articulados, que mantêm um discurso claro e uma pose atenta a quem os ouve. Falam em vez de ler e abstêm-se de enunciar a informação que vai aparecendo reflectida atrás, em ecrãs gigantes. Mais, os bons orado- res são pessoas capazes de improvisar sobre o momento e, até, de serem divertidos, tudo em função da atenção e expectativas dos presentes. Em resumo, são especialistas que conseguem passar a sua mensagem de forma mais afectiva e menos cerebral, que fazem questão de adequar o discurso à realidade real e, por isso mesmo, deixam sempre boas ideias para pensar. Felizmente conheço vários.

Fonte: Laurinda Alves”, in revista Xis, 23-11-2002.

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