Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023
Cultura CPLP

África e Literatura Hoje na Globalização

África e Literatura Hoje na Globalização
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Há hoje, em África, intelectuais de grande notabilidade mesmo internacional. O primeiro que citarei é Agostinho Neto (Angola), Jorge Barbosa (Cabo Verde), José Craveirinha (Moçambique), Marcelino dos Santos (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), dentre outros que deixaram, em grande parte ou às vezes totalmente a denominada “Literatura Colonial”, que não possuía certa africanidade. Assim, esses e tantos escreveram e escrevem prosa e poesia com sentimento áfrico, nacional e não externo.

Marcelino dos Santos, poeta e político Moçambicano, nascido em 1929, fundador do Frélimo ( Frente de Libertação de Moçambique) e quando o país tornou-se independente chegou a Ministro da Planificação e Desenvolvimento, afirma : “ os poetas foram os primeiros grandes líderes revolucionários em África. Primeiro, nós escrevemos poemas com sentido de libertação com o “ é preciso plantar” ( de 1953) terminando com os versos : “ é preciso plantar / pelos caminhos da liberdade / a nova árvore / da Independência Nacional”. Marcelino dos Santos usou pseudônimos como Kalunga e Lilinho Micaia explica que a prevalência do português e seu uso após a independência teve motivo decisivo : “ nós queríamos integrar o Continente. A nossa poesia dava conta de problemas comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo, dificultavam a difusão de nossas linhas libertárias”.
A expansão da língua português deu-se devido aos vários idiomas, em parte desaparecidos. Moçambique possuía 20 idiomas. Angola o “ português “ e o “quimbundo” defrontavam-se. Houve uma espécie de “ nacionalização” daquela pelos africanos.
Para o intelectual africano José Luandino Vieira, o “ português” representou um “ troféu de guerra”. Defendeu , uma independência de Angola, que esse era o idioma oficial do país.
Registre-se : o escritor Luis Bernado Honwana, natural de Maputo, autor de “ Nós matamos o cão Tinhoso” ( contos), “ a língua portuguesa é nossa também” , quando palestrava na Universidade de Minnesota – Estados Unidos, em 1979 e a platéia observou o fato. A pergunta era : “ Por que, após a independência os escritores de Moçambique não abandonaram a língua do colonizador?” Explicou : “ Com a independência a literatura em África toma, igualmente, um tom satisfeito e a “ nacionalização da língua portuguesa é eivada de neologismos, termos idiomáticos e misturas com palavras portuguesas”. A língua foi reinventada e continua na literatura contemporânea do continente afro”, explicou.
Assim, independentes, os escritores africanos defendem intensamente, em suas obras , a cultura africana própria e afirmam sua diversidade. Enriquecem o linguajar comum, mantêm a africanidade, fazem parte do português que é falado em todo o mundo. Há porém, criatividade e liberdade, sem padrões europeus, com normas cultas, alargando suas identidades.
Com essa formulação, os escritores africanos defendem plenamente a cultura e a diversidade africanas. Foi assim no romance “Mayombé”, de Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, já agora com mais de 16 romances publicados desde 1973. “Mayombé” escrito entre 71 e 73, lançado em 80 e renovando-se até hoje. Seus personagens têm nomes de guerra – “ Comandante sem Medo” e “ Comissário Político”. “ A dedicatória : “ Aos guerrilheiros de Mayombé, que ousaram desafiar os deuses.”
“ Mayombé” é um romance étnico. Depois das lutas de libertação e da relativa paz africana, o pós colonialismo se faz duro, mas firme. Em Angola, Manoel Rui lançou “Quem me dera ser onda”, mostra um porco habitante em um apartamento de família, causando transtornos: crítica de ironismo ao pós independência, novos ricos, populismo político e estrutura social que se precisa firmar.
Em 1985 Pepetela (Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos) publica “Yaka”, aspectos históricos retratando Benguela, sua cidade natal. “Yaka” é a estatua que acompanha de colonização. Em 1992, Pepetela lança “Geração de Utopia”, que completa e acrescenta fatores políticos “ O nascimento de um império”. Em Cabo Verde há poesia de João Varela (chamava-se também João Vário e Timótio Tio Tofe). Escreveu “o primeiro livro de Notcha, 1975. Ironicamente, o Moçambicano Germano de Almeida publica “ O meu poeta”, possivelmente o primeiro romance dessa nação.
Na Guiné-Bissau vê-se a obra de Abdulai Sila, com “Eterna Paixão”. Há no romance um personagem afro-americano e se mostra o pós- colonialismo de modo decepcionante. Em 97 vem “ Místida”, metafórico em seus personagens, esses perdem a memória, o dom da palavra, a visão decadência em paralelo ao tempo.
Em 97 ainda, Filinto de Barros, antigo dirigente do PAIGG ( Partido Africano para a independência de Guiné e Cabo Verde), Ministro na Guiné apresenta o romance “ Kikia Macho”.
África de 1957 a 2009 e crescendo até 2013 amadura embora dentro de guerras civis e caos social. O desenvolvimento de Pepetela é extraordinário: Ainda em 2008 leva ao público “ O Quase Fim do Mundo” . Em estilo, policial apresenta “ Jaime Bunda”, e a “ Morte do Americano”, paródia de James Bond, movimentado e original. Nesses livros trata do “neocolonialismo americano”. Em 2005 “ Predadores” desse intelectual denuncia “ As novas elites e o ambiente político favorecedor”.
Há de frisar-se o papel em literatura em geral dos angolanos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares e do Moçambicano Mia Couto. Agualusa tem mais de 20 publicações desde 89 – romances, novelas, poesias, contos, e guias, o que o levou a receber coleção de prêmios; seu primeiro romance “ A Conjura” ganhou Prêmio Sonangol. A poetisa ou poeta Ana Paula Tavares inicia-se com “Ritos de Passagem “. Publica também contos e, em coautoria , Os Olhos do homem que chorava no RIO, junto com Maoelo Jorge Marmelo. Em 2007, é seu ultimo trabalho “ Crônica Para Amantes Desesperados”.
Mia Couto, desde anos 80 publica poema “ Raiz de Orvalho” , continua escrevendo contos , depois aparece seu primeiro romance – “ Terra Sonâmbula”. Ganha Prêmio Virgilio Ferreira- dos mais importantes e valorizados em Portugal.
Nessa fase, desde Agualusa até Mia Couto que se desenvolvem cada vez mais vários autores já publicam fora de África e traduzidos mesmo para outros idiomas. África tem poucas editoras, mas os preços dos livros editados são impeditivos para os povos africanos em geral, nem sequer circulam nesse continente, os autores pouco se conhecem, salvo em eventos literários no exterior, porém a situação vai melhorando cada vez mais e melhor.
Muitos conheceram-se no Brasil, em Pernambuco e em outras partes no Rio e São Paulo.
Declarou, então, Paulina Chiziane, primeira romancista, assim considerada, de Moçambique e figura relevante fora de África : “ Não há dinheiro que financie arte literária em África. Não há condições de promovermos intercâmbio. Os livros só nos chegam através do Brasil ou de Portugal… “
Paulina afirma: “ Em Moçambique, há praticamente duas religiões : no sul e no interior a Cristã no litoral e ao norte a Muçulmana”. Fala Paulina em racismo entre os próprios africanos. Como a escritora Dina Salústio (Cabo Verde) é modesta em relação à sua obra : “ sou apenas mulher que escreve umas coisas…” Outra figura importante da literatura lusófona foi o jovem Onjdaki, 31 anos, 12 livros publicados ( contos, poesias e romances). É de Luanda. Guiné- Bissau tem representante, entre outros no poeta e jornalista Tony Tcheka (António Soares Lopes).
Geanfranco Rivasi, do Conselho de Cultura do Vaticano afiança: “A globalização mal – entendida, da qual são vítimas os países mais pobres ( refiro-me à África) leva a destruição de valores veiculados pelas tradições culturais ancestrais, à desestabilização das consciências e ao desarraigamento cultural de inteiras gerações induzidas em espiral que as conduz da pobreza à miséria…”
“A globalização – hoje – destrói África. Em 1885, África foi dividida entre países Europeus, na Conferência de Berlin. África do Sul ficou em mãos de holandeses e Ingleses até que, em fins do século 20, a luta de Mandela libertou-a, sendo ele seu primeiro Presidente. José Flavio Sombra Saraiva, Diretor Geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRE) declara : “ No subsolo africano estão concentrados os principais minerais estratégicos para a industria de alta tecnologia. Os 53 países são basicamente exportadores de petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Mas só participam de 2% do comércio mundial e têm 1% da produção industrial do mundo todo”. “Dona de 66% do diamante, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% manganês, 15% bauxita, 15 % do zinco e 15% do petróleo, não é à – toa que África despertou a cobiça de outras potências emergentes, como a China… E também a Coréia do Sul, Índia, Turquia, Irã”. “ África está no centro de uma concorrência fortíssima de interesses de todas as partes do globo; na berlinda da cena internacional contemporânea”.
África passa fome inacreditável, dolorosa e vergonhosa à civilização; é analfabeta mais de 80% do conjunto de todo o Continente ; e, assim, como valorizar sua literatura, escritores, poetas, contistas, educadores de alto valor? Agora a partir de 1999 e 2009 – 2013 seus homens de letras estão sendo considerados e traduzidos nas línguas ditas importantes, inclusive português, inglês, francês e ainda alemã e o Brasil que faz pela África, nós, um povo majoritariamente mestiço e negro?
No livro Perguntas e Respostas do antigo Papa Bento XVI , Ed. Pensamento, S.P 2009 PP 36 ss , essa autoridade máxima da Igreja católica, afirma respondendo a um presbítero ( padre) africano: “ em muitas partes de sua África, porém ainda temos essa situação em que existem acima de tudo grupos étnicos dominantes. O poder colonialista impôs fronteiras nas quais agora desenvolver-se em um grande conjunto e de encontrar além das etnias, a unidade do governo democrático e também a possibilidade de opor-se aos abusos coloniais que perduram ainda. África continua sendo objeto de abusos por parte das grandes potências, e muitos conflitos não teriam assumido essa forma se os interesses dessas grandes potências não estivessem por trás deles…”  E adiante : “ Numa palavra eu gostaria de dizer que África é um continente de grande esperança, de grande fé, de realidades… Mas é sempre também um Continente que, depois das destruições que ali levamos da Europa, tem necessidade da nossa ajuda fraterna. Esta é nossa grande responsabilidade neste tempo. A Europa exportou as suas ideologias, os seus interesses… ”
Pesquisa: Fontes – Suplemento Especial – África – A nova Literatura africana em conhecimento prático – Revista Literatura Nº24 2008. Agência Fides e Revista Mundo e Missão; Perguntas e Respostas do Papa Bento XVI, Pensamento, SP. 2009Referência do Autor:

*Germano Machado é Professor aposentado da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e da UCSAL (Universidade Católica do Salvador). Fundador do CEPA – Circulo de Estudo Pensamento e Ação.

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